POESIA. EDUARDA DE ANDRADE MENDES

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sábado, 1 de dezembro de 2012

Realidade sem pernas


                                                           photo by ansel adams

era o frio de costas, que se estendia depressa,
dobrando árvores, soterrado no deserto da idade,
pensando com máscaras,
as memórias que hoje são rudes pedras submersas em muros de saudades.

nos movimentos suspensos,
há círculos que envelhecem sem pensar,
reparos sem sentenças no papel pardo e impermeável das horas
que não nos determinam a folha ou a letra,
com medo do tempo que virá.

os cenários das razões, são enfermeiras em voz alta,
que nos trazem uma realidades sem pernas,
onde o queixume é uma simples nostalgia
e a ideia um provérbio acordado,
deambulando numa geografia de infância... num tempo em que havia lembranças.

eduarda

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Entre o nada e o pouco

                                                                  photo by: Oleg Oprisco


entre as tardes e s factos,
há olhares sem textura...
casulos de nostalgia aquém dos ventos,
como se todos os sorrisos fossem um travo amargo
e a mão...um lugar sentado no doer sem preces.

entre o nascer e o morrer,
há uma mágoa iludida,
como se o destino fosse um monge descalço ao sol,
escondido na lama do corredor.

entre o nada e o pouco,
há um instinto lúcido
que adormece visceral
e acorda ao som dos búzios moribundos.

eduarda

sábado, 3 de novembro de 2012

As costas da demência

                                                                photo google


que importam as minhas costas, quando na tua véspera, fui sem silêncio, o fio do gesto , a luz descaída do tudo e nada, a história que não repousei, no colar descaído do conto irreal e do rastro da vela rasgada. nos quilómetro fátuos que hoje andei, há pedras rasgadas na pele, ardidas no campo, antes do tempo navegar a sibila que me calcinará.
de tudo inventei, perseguindo palavras, embalsamando poemas parados no tempo do paradoxo, como futuro encerrado na sombra que sempre me seguiu.
dissequei círculos, transpirei fogos no mais gélido dos oceanos, quando a dormência trágico da ausência se colou na insónia da partida.
e neste vestido sem norma, esperando reticências nos ecos do incenso, construí na pele uma argila de preces, e no perfil a solidão da demência.

Eduarda

sábado, 27 de outubro de 2012

Jejum de ópio


                                                      photo by: Alexander Kharlamov


a leste ou a sul...
pouco importa o momento,
onde a bombordo encontro o pé da morte
e no convés o pensamento...
tédio maldito...
jejum de ópio...
nesta viajem a falar de mim,
com nervos ébrios e cotovelos rotos
no alçapão da condição.
e das confusas sensações
apenas o sossego eu quero...
sem comédias ou equilibristas da vida.

eduarda

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Destino sem memórias

                                                                  photo by: Oleg Oprisco


neste deambular entre a vida e o sonho,
vestida de noites e de manhãs rasgadas de frio,
há adagas que me golpeiam os pés,
espadejando-me a boca com punhos em redor.

queimei a certeza em delírios de insónias,
esticando todos os sentidos,
como se toda a respiração fossem versos de pássaros molhados.

entre o ruído das linhas e as invisíveis palavras da ausência,
retenho nos dedos o destino sem memória,
com cheiro a eternidade,
a hora caída no combate.

eduarda



sábado, 13 de outubro de 2012

Tecendos lamentos


                                                            photo google


que de ti sabes,
que não as pedras que te lançam,
que não as farpas que te corroem as mãos decepadas,
neste mísero estar,
com o olhar cortado no abismo,
com a pele e ossos em escombros.

o véu que te cobre,
é um  encontro com o nada,
um fechar de renúncia à vida que te renega.

e neste chão polvilhado de enigmas que não sabes,
cortas as veias do ar
e morres tecendo lamentos.

Eduarda


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sem título



 


                                                                                                                         " A felicidade é uma estação intermédia,
entre a carência e o excesso"
Henrik Ibsen


atrás dos sentidos,
existe um vento mistral
arrepiado de confrontos,
no pêndulo diagonal da dualidade.

nas inconscientes silhuetas
desenham-se refrões doridos,
como sentinelas febris em espirais
que lhes trocam os sonos.

há certezas nas marcas
e calafrios nas insónias.

atrás dos sentidos
...há sentidos que se temperam de sal.

eduarda

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Vidros rasgados

                                                               photo by: claudia marcu

não foi a morte que me doeu,
quando rasguei a vida
no umbral das folhas doridas
que plantaram na minha pele!

parti todos os vidros,
que não podia alcançar,
de pés doridos, falecidos de tanto andar,
na cruel assimetria das palavras que não ousei.

não foi a morte que me doeu,
quando quis ir mais além,
dos muros e das pedras que não consegui alcançar.

o que me doeu nos olhos, fechados de tanto penar,
foi esta vida farpada, de sangue e calafrios,
das frases que nunca li.

eduarda



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sem requerimento

                                                                        photo by: katia lomosova

fui ontem a ilusão que tive
e nos sonhos que alberguei
a romeira intemporal que quis acreditar.

passou o tempo e tudo se perdeu
num arrastar lento e  desconexo
em memórias e histórias
que me fizeram depois de morta.

tenho  hoje no corpo
um véu paulatino e sem mudanças
nas noites frias das ausências
que me embriaga como requerimento
do tudo o que fui...do tudo o que não ousei.

eduarda


terça-feira, 6 de março de 2012

Adeus tristeza

                                                      photo by: Darius Kilmczak