POESIA. EDUARDA DE ANDRADE MENDES

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sexta-feira, 5 de agosto de 2016

MORRO-ME

                                                                 photo google


num apelo critico morro-me!
e depois o silêncio do machado,
que cortou a árvore,
que devorou o lago translúcido da insanidade.

morro-me!
como se morrer fosse o único refúgio que me aguenta a dor,
que me constrói o cais do desembarque...
frio e podre das ondas empobrecidas.

do nada se solta o gemido,
fraco e alheio ao hoje,
onde o ontem não tem passagem.

morro-me assim...
sem abrigo, sem luz, sem cor
num desfazer a vida em mitos sem coragem.

eduarda


quarta-feira, 9 de setembro de 2015

SEM EXISTENCIA

                                        photo by bauza


há algo que me intriga neste existir...
que me confunde...que me estreita a pele
numa argamassa mistificada de nadas,
onde impera somente o silêncio dos outros.

há algo que me supera,
há o pobre e o rico que me degolam,
que me suturam as veias,
numa epiderme irónica e ressequida.

há neste labirinto rugas amordaçadas
que lhes conferiram na hora da morte...
a herança do não saber existir.

eduarda


quarta-feira, 12 de agosto de 2015

ESTA LOUCURA...

                                                    photo google

esta loucura que tenho leva-me a levar o vento
esbatido no preto,
envolvo em voos persistentes,
mente demente que me adormece a mente.

iço-me no mais alto
procurando no nada os voos nocturnos
da mente...que me desmente.

esta loucura que trago e que desconheço ao dormir
tem a forma da mentira, sem chão, sem brisa, sem ar...

eduarda

terça-feira, 14 de julho de 2015

NO REVES DA ALMA

                                                           photo google

e assim me revejo entre as noites distantes e os dias alinhavados de outras imagens.
são apenas panos de linho, cinzentos ou pardos, tanto faz, sem carimbos de lembranças,
sem debruns nas gélidas mãos.
disfarço-me... como se todo o universo me despisse de nadas,
como se todas as paragens fossem apenas mitos desconvocados por altos deuses...
que me ousaram matar viva.
entre o hoje e e o amanha apenas fios de um vazio dormente, calafrios sem frios nos olhos,
imotos, insalubres.
há apenas neste reencontro um som mascarado, sem raiva, sem absurdos ou interrogações.
entre o hoje e o amanhã há apenas a diferença do passado colado no revés da alma...
onde aprendi a não dormir.

eduarda

quinta-feira, 11 de junho de 2015

TEMPO....



                                                            photo google


no meu passado há um presente...
esbatendo-se nas ondas...
fechado nas mãos.

entre linhas de manha,
tela ao luar da tarde que não cai
revejo as luzes...
recordo o olhar.

cravo os dentes no deserto...
como mito inexplicável dum adeus inquebrável.

nas ruínas do quebranto,
lanço dados aos deuses errantes,
que me fizeram naufragar.

Eduarda



quinta-feira, 4 de junho de 2015



na hora cansada das janelas fechadas
há palavras amorfas, feita de punhais de dores,
há caminhos  lentos, sonambulos...
esperando o pranto.

há nela peregrinos desfeitos de penas,
há sentidos sem sentido...
há lamentos sem gritos.

na hora cansada do nada, sente-se o uivo errante
da morte levante na parede sem preces.

Eduarda

sábado, 25 de outubro de 2014

livre...

Há uma leve brisa que me corre a alma
como se todas as portas etéreas se abrissem
em suave calmaria.

As cores não são apenas a ilusão subtil de quem sente
mas a verdade de quem as tem

No ar mil fragrâncias se dispõem
numa quasi valsa de segredos...
concretos sentimentos unidos num só tom.

Ao despir o pranto, visto o real de quem vive
as letras e sons... cantadas num bergantim sem penas.


Eduarda

domingo, 22 de setembro de 2013

Ventos negros


                                              photo google

hoje esqueci-me quem sou...o que fui, por onde andei.
perdi-me na obscuridade dos desencontros,
quando quis lançar-me do alto...
para  sentir a vaga morna que me abrigasse,
de um qualquer sistema suicidário.

bati na porta errante...
dormi na falésia desabrida dos uivos dos lobos...
comi todas as areias viajantes...
sentei-me no trono que me rasgou a alma,
num obsceno gesto que me cortou as veias.

tornei-me hoje na romeira intemporal, vestida de ventos negros
sem gritos ou dores...as penas viajaram para o último túmulo
onde me resguardei e onde permaneço.

eduarda






sábado, 11 de maio de 2013

Sem recortes


                                                                photo by google


nesta louca incerteza de não saber quem sou,
sento-me na viela, entre a ferrugem do tempo
e a inócua razão da velha bebedeira,
com meias rotas de horas inacabadas
e um fumo de pó que me entra no braço inerte,
esperando o que me falta, sem saber ao certo o que é.

recorto janelas e paredes, armários e vendavais,
na vã esperança de encontrar o destino,
coisa muita sem relógio de balanço,
que se partiu na despedida, sem me olhar ou me ver.

sem forças para andar, para pensar ou morrer,
envolta no arame farpado dos moribundos,
fico por aqui parada, na lacuna do opaco,
amassando palavras num indiferente incondicional,
sem prantos, sem dores, sem lamentos.

eduarda


sábado, 1 de dezembro de 2012

Realidade sem pernas


                                                           photo by ansel adams

era o frio de costas, que se estendia depressa,
dobrando árvores, soterrado no deserto da idade,
pensando com máscaras,
as memórias que hoje são rudes pedras submersas em muros de saudades.

nos movimentos suspensos,
há círculos que envelhecem sem pensar,
reparos sem sentenças no papel pardo e impermeável das horas
que não nos determinam a folha ou a letra,
com medo do tempo que virá.

os cenários das razões, são enfermeiras em voz alta,
que nos trazem uma realidades sem pernas,
onde o queixume é uma simples nostalgia
e a ideia um provérbio acordado,
deambulando numa geografia de infância... num tempo em que havia lembranças.

eduarda

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Entre o nada e o pouco

                                                                  photo by: Oleg Oprisco


entre as tardes e s factos,
há olhares sem textura...
casulos de nostalgia aquém dos ventos,
como se todos os sorrisos fossem um travo amargo
e a mão...um lugar sentado no doer sem preces.

entre o nascer e o morrer,
há uma mágoa iludida,
como se o destino fosse um monge descalço ao sol,
escondido na lama do corredor.

entre o nada e o pouco,
há um instinto lúcido
que adormece visceral
e acorda ao som dos búzios moribundos.

eduarda

sábado, 3 de novembro de 2012

As costas da demência

                                                                photo google


que importam as minhas costas, quando na tua véspera, fui sem silêncio, o fio do gesto , a luz descaída do tudo e nada, a história que não repousei, no colar descaído do conto irreal e do rastro da vela rasgada. nos quilómetro fátuos que hoje andei, há pedras rasgadas na pele, ardidas no campo, antes do tempo navegar a sibila que me calcinará.
de tudo inventei, perseguindo palavras, embalsamando poemas parados no tempo do paradoxo, como futuro encerrado na sombra que sempre me seguiu.
dissequei círculos, transpirei fogos no mais gélido dos oceanos, quando a dormência trágico da ausência se colou na insónia da partida.
e neste vestido sem norma, esperando reticências nos ecos do incenso, construí na pele uma argila de preces, e no perfil a solidão da demência.

Eduarda

sábado, 27 de outubro de 2012

Jejum de ópio


                                                      photo by: Alexander Kharlamov


a leste ou a sul...
pouco importa o momento,
onde a bombordo encontro o pé da morte
e no convés o pensamento...
tédio maldito...
jejum de ópio...
nesta viajem a falar de mim,
com nervos ébrios e cotovelos rotos
no alçapão da condição.
e das confusas sensações
apenas o sossego eu quero...
sem comédias ou equilibristas da vida.

eduarda

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Destino sem memórias

                                                                  photo by: Oleg Oprisco


neste deambular entre a vida e o sonho,
vestida de noites e de manhãs rasgadas de frio,
há adagas que me golpeiam os pés,
espadejando-me a boca com punhos em redor.

queimei a certeza em delírios de insónias,
esticando todos os sentidos,
como se toda a respiração fossem versos de pássaros molhados.

entre o ruído das linhas e as invisíveis palavras da ausência,
retenho nos dedos o destino sem memória,
com cheiro a eternidade,
a hora caída no combate.

eduarda



sábado, 13 de outubro de 2012

Tecendos lamentos


                                                            photo google


que de ti sabes,
que não as pedras que te lançam,
que não as farpas que te corroem as mãos decepadas,
neste mísero estar,
com o olhar cortado no abismo,
com a pele e ossos em escombros.

o véu que te cobre,
é um  encontro com o nada,
um fechar de renúncia à vida que te renega.

e neste chão polvilhado de enigmas que não sabes,
cortas as veias do ar
e morres tecendo lamentos.

Eduarda


sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Sem título



 


                                                                                                                         " A felicidade é uma estação intermédia,
entre a carência e o excesso"
Henrik Ibsen


atrás dos sentidos,
existe um vento mistral
arrepiado de confrontos,
no pêndulo diagonal da dualidade.

nas inconscientes silhuetas
desenham-se refrões doridos,
como sentinelas febris em espirais
que lhes trocam os sonos.

há certezas nas marcas
e calafrios nas insónias.

atrás dos sentidos
...há sentidos que se temperam de sal.

eduarda

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Vidros rasgados

                                                               photo by: claudia marcu

não foi a morte que me doeu,
quando rasguei a vida
no umbral das folhas doridas
que plantaram na minha pele!

parti todos os vidros,
que não podia alcançar,
de pés doridos, falecidos de tanto andar,
na cruel assimetria das palavras que não ousei.

não foi a morte que me doeu,
quando quis ir mais além,
dos muros e das pedras que não consegui alcançar.

o que me doeu nos olhos, fechados de tanto penar,
foi esta vida farpada, de sangue e calafrios,
das frases que nunca li.

eduarda



quarta-feira, 4 de abril de 2012

Sem requerimento

                                                                        photo by: katia lomosova

fui ontem a ilusão que tive
e nos sonhos que alberguei
a romeira intemporal que quis acreditar.

passou o tempo e tudo se perdeu
num arrastar lento e  desconexo
em memórias e histórias
que me fizeram depois de morta.

tenho  hoje no corpo
um véu paulatino e sem mudanças
nas noites frias das ausências
que me embriaga como requerimento
do tudo o que fui...do tudo o que não ousei.

eduarda


terça-feira, 6 de março de 2012

Adeus tristeza

                                                      photo by: Darius Kilmczak